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segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Não derramem lágrimas por mim. Eu vou onde Jesus está. Em meu funeral não quero gente que chore, mas que cante forte".

"Tchau. Seja feliz porque eu o sou"

A Jovem Chiara Luce Badano beatificada no dia 25 de setembro de 2010, com a presença de pelo menos 25 mil pessoas no santuário do Divino Amor, em Roma, é um modelo para todos os jovens, ou melhor, para todos nós.
A jovem italiana falecida aos 19 anos (1971-1990) após uma longa doença durante a qual deu prova de autenticidade cristã.

  “Uma jovem bela, cheia de vida, atleta, ativa. 
Uma jovem normal, uma cristã. 
Depois, inesperadamente a doença, a agonia, a morte.
Uma escalada rápida para o Céu.
Encaminhado o processo da sua beatificação.”
(Michele Zanzucchi - Città Nuova)
O milagre que permitiu a beatificação da Chiara, foi reconhecido em 9 de dezembro de 2009, um menino em Trieste que sofria com uma forma de meningite muito grave foi curado.
Chiara Badano, fazia parte do Movimento dos Focolares, e nasceu em Sassello, Liguria, em 29 de outubro de 1971. Desde muito pequena, Chiara mostrou um profundo amor por Deus, ao tempo que revelava um caráter forte, mas dócil, era alegre, bondosa e muito ativa.
Aos nove anos ingressou no Movimento dos Focolares. Em 1985 se mudou a Savona para seguir os estudos de bacharelado. Aos 16 anos discerniu sua vocação e decidiu consagrar-se a Deus. Manteve uma relação muito próxima com a fundadora dos Focolares, Chiara Lubich, quem pôs nela o apelido de "Luce", ou “Luz” em italiano.
Pouco tempo depois diagnosticaram um tumor no seu ombro. O diagnóstico foi "sarcoma ostiogênico com metástase", um dos tumores mais graves e dolorosos que existem. Chiara se propôs superar a enfermidade e começou um intenso tratamento de quimioterapia, e seguia com sua vida sem perder a alegria nem a fé.
Entregou todas as suas economias a um amigo que partiu em missão humanitária a África. Apesar dos esforços dos médicos, a enfermidade avançava rapidamente e perdeu o uso das pernas. "Se tivesse que escolher entre caminhar ou ir ao paraíso, escolheria esta última possibilidade", disse a seus familiares, já não pedia curar-se, mas encontrar-se com Jesus.
Em julho de 1989 sofreu uma severa hemorragia e parecia que o desenlace chegaria a qualquer momento. Disse a seus pais: "Não derramem lágrimas por mim. Eu vou onde Jesus está. Em meu funeral não quero gente que chore, mas que cante forte".
Em seu leito de enfermidade, Chiara rezava muito pedindo ser capaz de cumprir com a vontade de Deus. "Não peço a Jesus que me deva buscar para me levar ao paraíso; não queria dar a impressão que não quero sofrer mais", dizia e decidiu preparar com sua mãe a que chamava "festa de bodas", quer dizer seu funeral.
No domingo 7 de outubro de 1990 Chiara faleceu acompanhada de seus pais. Depois da porta da habitação aguardavam seus amigos. Suas últimas palavras foram para sua mamãe: "Tchau. Seja feliz porque eu o sou". Aproximadamente duas mil pessoas assistiram a seu funeral.

O então Bispo de Acqui, Dom Livio Maritano, iniciou o processo de beatificação da Chiara em 1999. O Prelado assegura que tomou esta decisão por "sua forma de viver, especialmente o exemplo extraordinário que ofereceu na última parte de sua vida".
Em meio a tantas seduções da sociedade de consumo, existem JOVENS que conseguem vivenciar o Evangelho de forma totalitária. Não é verdade que a correnteza dos contra-valores seja invencível.
Jovens de todo o mundo demonstram seu amor por Chiara Luce: “É um modelo para todos os jovens. Isso me ajudará a nadar na contra correnteza do mundo consumista em que vivemos”. (Elsy, dos Estados Unidos).
“Enquanto a sociedade nos leva a nos distanciarmos de tudo que é sofrimento e incômodo, Chiara Luce nos ensina a abraçar as dificuldades e a transformá-las em amor ao próximo”. (Paulo, da Itália), 
“Chiara Luce me demonstrou que vale a pena dar a vida por algo de grande, pela fraternidade universal”. (Ramon, de Teresina – PI),
 “O que atrai nela é o triunfo da vida e da alegria. Chiara nos deixou uma trilha para seguir”. (Tatenda, da África do Sul).
O livro - A Clara Luz de Chiara Luce – 2ª edição, lançado pela Editora Cidade Nova, conta sua história e vem recheado de novos depoimentos. “Chiara nasceu em Sassello, no norte da Itália, no dia 29 de outubro de 1971. Aos nove anos tomou conhecimento do Movimento dos Focolares, ao participar com seus pais, em Roma, do Family Fest, um encontro mundial organizado por esta expressão eclesial proporcionou futuramente um impacto decisivo para os três membros da família.” 
A jovem era extremamente ativa no Movimento Gen (Geração Nova), setor juvenil dos Focolares, no qual descobriu que Deus é Amor. “Ela tinha 17 anos quando sentiu uma forte dor nas costas, durante uma partida de tênis”.
Logo nos primeiros exames “os médicos perceberam que Chiara estava com câncer nos ossos. Faleceu no dia 7 de outubro de 1990. Havia preparado tudo: as canções de seu funeral, as flores, o penteado, o vestido de noiva”.
Ainda hoje, aproximadamente 21 anos de sua morte, jovens do mundo inteiro evocam e invocam Chiara Luce, como exemplo e ajuda.

Fontes: Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro,
Diocese de Assis e Agencia Ecclesia (http://www.agencia.ecclesia.pt) 
 

domingo, 10 de abril de 2011

Santidade aos 18 anos - Chiara Luce Badano

Chiara Luce (Luz)
A Santidade é possível, a santidade é real, a santidade é para o nosso tempo, a santidade é para os jovens, a santidade é para todos nós...

Leia aqui o grande testemunho de amor a Jesus, da jovem Chiara Luce

O heroísmo possível aos 18 anos. Foi o que reconheceu hoje o Papa ao aprovar um decreto da Congregação da Causa dos Santos no qual afirma-se que Chiara Badano praticou em grau heróico as virtudes cristãs. Segundo o procedimento típico dos processos de beatificação, a jovem de 18 anos foi declarada “venerável”. É a etapa que antecede imediatamente a beatificação, quando e se será reconhecida a autenticidade de um milagre.

Chiara Luce concluiu a sua viagem terrena no dia 7 de outubro de 1990, após dois anos de uma dolorosa doença, um tumor ósseo que progressivamente a privou das forças, mas não lhe tirou a alegria de viver. Uma alegria conquistada com heroísmo.

“Existe o heroísmo quando o comportamento virtuoso se prolonga no tempo e torna-se particularmente difícil, tanto que supera o modo normal de agir, manifestando, desse modo, a constante determinação de conformar-se, em tudo, à vontade de Deus”. Assim explicou Dom Livio Maritano, bispo emérito de Acqui, que em 1990 deu início à fase diocesana do processo de beatificação.
Foi o Evangelho que a sustentou nos momentos mais difíceis de provação, e o encontro com um Deus próximo, também ele sofredor, redescoberto na figura de Jesus que sobre a cruz chega a gritar o abandono do Pai. Uma fé viva, jovem, que nutria-se abundantemente do contato com a espiritualidade da unidade e com Chiara Lubich, que ela conheceu com a idade de 9 anos.
Chiara Badano nasceu em Sassello (Savona – Itália) em 29 de outubro de 1971, após 11 anos de espera de seus pais. Em 1981, com o pai e a mãe, participou do Family Fest, em Roma – uma manifestação mundial do Movimento dos Focolares. Para todos três foi o início de uma nova vida. Na sua pequena cidade Chiara lançou-se a amar as colegas de escola, qualquer pessoa que passava ao seu lado, decidida a viver com radicalidade o Evangelho que a tinha fascinado. Logo se comprometeu, com grande ardor, entre as meninas da sua idade no Movimento. 

Poucos anos depois uma forte dor nas costas, durante uma partida de tênis, causou a suspeita dos médicos. Tiveram início exames clínicos de todos os tipos para definir a causa das dores. Logo chegou-se ao diagnóstico de um tumor ósseo. Continuaram as consultas e exames, até que no final de fevereiro de 1989 Chiara faz a primeira operação: as esperanças são poucas. As jovens que partilham de seu mesmo ideal, e outras pessoas do Movimento, se alternam em visitas ao hospital, para sustentar ela e sua família com a unidade e a ajuda concreta. As internações no hospital, em Turim, tornam-se cada vez mais freqüentes e os tratamentos são muito dolorosos. Chiara os enfrenta com grande coragem. Diante de cada nova “surpresa” o seu oferecimento é decidido: “Por ti, Jesus, se tu queres eu também quero!”.
Não obstante a gravidade de suas condições logo que a saúde o permite Chiara participa pessoalmente, com alegria e entusiasmo, de tudo que acontece no Movimento dos Focolares.
Uma outra grande provação não tarda a chegar, é quando Chiara não pode mais andar. Uma nova operação, muito dolorosa, revela-se inútil. Para ela é um sofrimento imenso e encontra-se como em um túnel escuro. Mas encontra ainda a força para continuar a amar e a luz retorna. “Se tivesse que escolher entre caminhar e ir para o Paraíso – ela confia a alguém – sem hesitar escolheria ir para o Paraíso. Agora é só isso que me interessa”.

Desde pequena tinha procurado viver o Evangelho 100%, embora com os altos e baixos da adolescência. Dirigindo-se aos amigos escreveu em sua agenda:
“Saí da vida de vocês num segundo. Como eu teria desejado parar aquele trem que corria e se afastava cada vez mais! Mas ainda não entendia. Estava ainda absorvida por tantas ambições, projetos e quem sabe o que mais (coisas que agora me parecem insignificantes, fúteis, passageiras). Um outro mundo me esperava e não me restava senão abandonar-me. Mas agora eu me sinto envolvida por um desígnio esplêndido que aos poucos se revela”

O médico que a acompanha, cético e muito crítico em relação à Igreja, fica cada vez mais profundamente tocado pelo testemunho seu e de seus pais. “Desde quando conheci Chiara alguma coisa mudou dentro de mim. Aqui existe coerência, aqui, na minha opinião, todo o cristianismo se encaixa”.
O seu relacionamento com Chiara Lubich é muito estreito e a mantém constantemente informada sobre o estado da sua saúde, suas conquistas e descobertas. No dia 30 de setembro de 1989 Chiara Lubich lhe responde: “... Vejo que você está totalmente voltada a corresponder ao amor de Deus e a dizer-lhe o seu constante ‘sim’. Eu lhe acompanho sempre com a minha oração e com todo o meu amor. Escolhi a Palavra de Vida que você desejava: ‘Quem permanece em mim e eu nele, produz muito fruto’. Um abraço Chiara, peço ao Espírito Santo que lhe dê o dom da fortaleza, para que a sua alma, pelo amor a Jesus abandonado, possa sempre ‘cantar’...”.

Embora na imobilidade Chiara é muito ativa. Pelo telefone acompanha o grupo dos Jovens por um Mundo Unido de Savona, com mensagens, cartões e cartazes faz sentir a sua presença nos Congressos e atividades, procura todos os meios para fazer com que seus amigos e colegas de escola conheçam os gen e as gen, convida muitos deles para o Genfest ’90 (encontro internacional dos Jovens por um Mundo Unido, realizado em Roma, em maio de 1990), que tem a alegria de assistir graças a uma antena parabólica montada no teto de sua casa.
No início do verão os médicos decidem interromper as terapias. É impossível parar a doença. Chiara logo informa Chiara Lubich sobre a situação. É o dia 19 de julho de 1990: “A medicina depôs as suas armas. Interrompendo os tratamentos as dores nas costas aumentaram e quase não consigo mais me mexer. Sinto-me tão pequena e o caminho a percorrer é tão árduo... muitas vezes sinto-me sufocada pela dor. Mas é o Esposo que vem me encontrar, não é? Sim, eu também repito, com você: ‘Se tu queres, eu também quero’... Tenho certeza que com ele venceremos o mundo!”.
Chiara Lubich responde imediatamente: “Chiara, não tenha medo de dizer-lhe o seu sim, momento por momento. Ele lhe dará a força, esteja certa disso! Eu também rezo  e estou sempre aí com você. Deus lhe ama imensamente e quer penetrar no íntimo da sua alma e fazer com que você experimente gotas de céu. ‘Chiara Luce’ (‘Clara Luz’, ndR) é o nome que escolhi para você. Você gosta? É a luz do Ideal que vence o mundo. Eu o mando a você junto com todo o meu afeto...”.

Com o agravamento da doença seria necessário aumentar a dosagem de morfina mas Chiara Luce se recusa: “Tira a minha lucidez e é só a dor o que posso oferecer a Jesus”.
Num momento de grande sofrimento físico confia à sua mãe que o seu coração está cantando: “Eis-me aqui Jesus, ainda hoje, diante de ti...”. Tem a certeza de que logo irá encontrá-lo e se prepara. Uma manhã, depois de uma noite difícil, é espontâneo para ela repetir, com breves intervalos: “Vem, Senhor Jesus”. Às 11 horas, inesperadamente, chega um sacerdote do Movimento para visitá-la. Chiara Luce fica felicíssima porque desde cedo desejava receber Jesus Eucaristia. É o seu companheiro na última viagem.

Chiara Luce foi para o céu no dia 7 de outubro de 1990. Ela tinha pensado em tudo: nos cantos para o seu funeral, nas flores, no penteado e no vestido, que queria que fosse branco, como de uma noiva, com uma recomendação: “Mamãe, enquanto você estiver me preparando deve repetir sempre: agora Chiara Luce está vendo Jesus ... estejam felizes porque eu estou feliz”. Seu pai tinha lhe perguntado se gostaria de doar as suas córneas ao que ela havia respondido com um lindo sorriso. Logo depois da partida de Chiara Luce para o céu Chiara Lubich envia um telegrama aos pais: “Agradeçamos a Deus por esta sua obra-prima luminosa”.

A sua fama se difunde e Chiara Luce torna-se uma referência para muitos jovens que encontram na sua história um sentido para a vida, um ideal que não passa. Todos os anos, no dia 7 de outubro, aniversário de sua morte, são muitos os que se reúnem no cemitério de Sassello para recordá-la.
A declaração de venerabilidade de Chiara Badano – declara Dom Maritano – nos estimula a imitar o seu exemplo, que nos apresenta um modo concreto de viver o Evangelho; mais uma confirmação que o cristianismo é verdadeiramente praticável também hoje, inclusive pelos jovens, nas situações ordinárias da vida”. “É bom tornar conhecido o seu testemunho – ele continua – pela ajuda que o seu exemplo pode oferecer a pessoas de qualquer idade e condição”.
Um exemplo a ser seguindo em nossos dias

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Testemunho de Maria Emmir Nogueira (Co-fundadora da Comunidade Shalom).

Santa Gianna e eu
Em 24 de abril de 1994, mal tinha ouvido falar de Gianna. Havia-me admirado de seu ato heroico para salvar sua filha e citava-o quando pregava sobre a paternidade responsável e respeito à vida nos cursos de sexualidade e Matrimonio, muito em voga na época e, lamentavelmente, esquecidos hoje em dia. Naquela época, estes cursos aglomeravam filas de pessoas à espera de uma vaga, e eu era a principal responsável por eles. Com o nascimento do meu quarto filho, inexplicavelmente, a procura diminuiu até praticamente acabar.
Meu quarto filho nasceu em 1988. Havia sido minha quarta cesaria e os médicos, como de praxe até hoje, pressionavam de todo o jeito para que eu laqueasse as trompas. Neguei durante os nove meses de gravidez, consciente de que tal mutilação é um pecado grave, ainda mais para quem era esclarecido e pregava sobre o assunto como eu. No dia do parto, para garantir que nada seria feito contra a vontade de Deus, pedi a uma amiga ginecologista e cristã, que estivesse comigo na sala de parto. Na mesma sala, estava meu cunhado que, sendo cirurgião plástico, sempre acompanha as intervenções cirúrgicas da família.
Meu bebe nasceu com problemas respiratórios e a pressa do pediatra em tira-lo da sala pareceu-me evidente. A culpa abateu-se sobre mim, confusa e zonza devido aos anestésicos e sedativos. Retirada à criança, o obstetra consultou-me acerca da laqueadura. O útero estava “como um papel” e estava difícil até fazer a sutura. Consultei minha amiga e meu cunhado. Ambos foram peremptórios. Não suportaria uma outra gravidez. Diante de minha aflição, meu cunhado prometeu: “se algum dia você se arrepender, prometo que reverto a cirurgia”. O obstetra vendo minha aflição, disse que faria a laqueadura de uma forma que, se eu quisesse, poderia vir a ser revertida, mas que cortaria as trompas (naquela época costumava-se, em alguns casos, apenas “amarar”, como se dizia popularmente).
Não responsabilizo os médicos presentes por minha decisão. Absolutamente. A decisão foi minha e, por mais zonza que estivesse, era consciente e esclarecida o bastante para saber que estava fazendo algo que a Igreja proibia peremptoriamente. No entanto, tendo saído da sala de cirurgia, o assunto apagou-se inteiramente de minha memória, embora – graças a Deus! – não se tenha apagado de minha consciência. Que belo presente de Deus é a consciência do homem!
O fato de meu filho ter passado cerca de 72 horas na incubadora (fato que, na época era reservado para os bebes em risco), fez-me concentrar-me exclusivamente nele e , uma vez em casa, pude cuidar dele pessoalmente, em meu quarto, durante cerca de dez meses, amamentando-o, “curtindo-o” de todo o jeito. Era meu ultimo meu precioso, minha ultima chance de viver a maternidade biológica. Naturalmente, não tinha consciência disso na época, mas, olhando a partir de hoje, vejo que o conhecimento deste fato deu-me um senso extra de responsabilidade e despedida com relação ao exercício da maternidade para com ele.
Um belo dia, a Comunidade orientou uma revisão geral de vida. Cada um deveria rezar e examinar-se com relação a dezenas de perguntas. Fiz minha revisão à noite e, embora não houvesse dentre as perguntas nada que sequer se referisse à paternidade responsável ou métodos naturais (eu era, à época, a única casada da comunidade de vida), Deus e Gianna me conduziram de forma terna e firme.
Terminada a revisão de vida, deitei-me de uma forma que não costumo absolutamente fazer: de bruços, com a mão direita sobre o ventre. No mesmo instante em que me deitei, caíram as escamas dos meus olhos e o negro véu de minha consciência. Lembro-me de ter falado alto: ” Meu Deus, laqueei as trompas! Meu Deus, o que foi que eu fiz?!” Na mesma hora, apesar do adiantamento da hora, liguei para o meu cunhado, cobrando a promessa. Ele pediu alguns exames e marcou a cirurgia para segunda-feira seguinte. Dormir meio aliviada, meio perplexa, meio aflita, sem ter com quem partilhar tudo aquilo, pois meu esposo já estava dormindo desde cedo. No outro dia, às seis horas, estava à porta da capela do Colégio Santa Cecília para interceptar o padre antes mesmo da missa. Confesso que foi muito doloroso, mas também edificante, confessar um pecado evidentemente mortal, evidentemente publico, evidentemente vergonhoso. Senti-me salutarmente humilhada e vislumbrei a imensidão do cuidado e da misericórdia de Deus para comigo e para com minha família. Ele tinha tudo para me condenar, mas escolheu abençoar, exercer a misericórdia e oferecer o perdão.
Um dia antes da cirurgia, fui confessar-me mais uma vez com um santo padre que, era meu confessor quinzenal, Pe. Tito. Durante a confissão, ele quis certificar-se de que era realmente aquilo o que eu queria e eu expliquei que, no meu caso, aquele era um escândalo publico que requeria reparação publica. Sua ultima frase sobre o assunto me ressoara sempre aos ouvidos: ” Và, minha filha. Faça o que você acha que è a vontade de Deus. Tenho certeza de que Nossa Senhora, no seu caso, faria o mesmo”.
Confesso que não foi fácil enfrentar uma micro cirurgia há tantos anos atrás. Era o inicio desta técnica e eu jamais ouvira falar de uma reversão de laqueadura de trompas. Novamente, me invadia o medo de deixar meus filhos, especialmente o pequenino. Pedi ajuda aquela mulher heroica de quem havia ouvido falar, a Gianna que, na época, chamava de Geana. A cirurgia durou três horas (minha trompa esquerda estava perdida, grudava em algum lugar e teve de ser procurada), mas sai melhor do que antes. Tinha recuperado em 80% a trompa direita e 60% à esquerda, o que, para mim, significava 100%, pois doze anos antes havia recebido o diagnostico de trompas coladas e consequentemente esterilidade.
No domingo anterior à cirurgia, fui à missa à noite, com as malas já prontas para ir ao hospital. La, para minha surpresa, Padre José Ialéia contou que, naquela manha, João Paulo II havia beatificado Gianna Beretta, médica, esposa, mãe, sobretudo Mãe, defensora da vida. Foi um sinal de Deus. Gianna e eu estávamos, assim, mais do que nunca unidas e, com ela e por sua intercessão, deito-me cada dia mais responsável por rezar, meditar, estudar e estudar acerca da maternidade e do valor da vida.
Depois da cirurgia, os alunos voltaram ao curso de sexualidade e matrimonio, pois havia sido reconquistada a autoridade espiritual perdida pelo meu pecado, embora a laqueadura fosse do conhecimento de menos de dez pessoas. São mistérios da vida espiritual, que exige imensa coerência. Além disso – e fico imensamente feliz por este fato – muitos casais que não podiam ter filhos procuraram-me para orar por sua fertilidade. Tenho dezenas de “filhos” no Brasil e um na Itália. Agora mesmo, estou escrevendo de Belém, da casa de uma dentre estes “filhos”. Dormi em seu quartinho, agradecendo a Deus por sua vida e pedindo a Gianna, canonizada ontem, que faça dela uma mulher feliz e amiga de muitos santos, como Gianna e eu.
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